quarta-feira, 9 de outubro de 2019

“Novas pesquisas apontam os malefícios causados pelo uso excessivo de agrotóxicos nas lavouras”

RECORDE. O BRASIL, MAIOR CONSUMIDOR DE AGROTÓXICOS DO PLANETA, CONTINUA A LIBERAR PESTICIDAS. EM NOVE MESES, FORAM QUASE 400 AUTORIZAÇÕES. VEM MAIS POR AÍ... FOTO: ISTOCKPHOTO 


Por René Ruschel 

“Pressionada por parceiros internacionais preocupados com a imensa quantidade de agrotóxicos liberada pelo governo, mais de 300 desde janeiro, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, recorreu a mais uma mitologia. Segundo ela, o clima no Brasil não é favorável ao cultivo de orgânicos e só resta aos produtores a alternativa de bafejar pesticidas nas plantações.  

E o ritmo de novas autorizações não para. Na terça-feira 1º, o ministério anunciou a análise de mais 33 pedidos de liberação de agrotóxicos, para alegria da indústria que encontra cada vez mais dificuldade para desovar seus produtos em nações desenvolvidas. Não se trata apenas de volume. O País impõe limites de toxicidade absurdamente mais elevados que aqueles permitidos nas principais economias do planeta. Um trabalho elaborado pela pesquisadora Larissa Bombardi, “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a Comunidade Europeia”, aponta a diferença entre os limites locais e aqueles adotados na União Europeia. 
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Embora as metodologias sejam diferentes, assim como os anos apurados, um estudo elaborado pela European Envinroment Agency, em 2008, “Use of Herbicides Across Europe”, mostra que na UE a escala não passa de 2 quilos por hectare – e essa quantidade só é utilizada em um único país, a Bélgica. No Brasil, a média de consumo do glifosato nos estados da Bahia, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul oscila entre 5 e 9 quilos por hectare. No Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Mato Grosso, esse número cresce assustadoramente: entre 9 e 19 quilos.  
INVESTIGAÇÃO. HESS E BOMBARDI (FOTO) CHEGARAM A CONCLUSÕES PARECIDAS E COMPLEMENTARES EM SUAS PESQUISAS SOBRE OS HERBICIDAS 
Segundo o professor Pablo Moritz, diretor do Centro de Formação Toxicológica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, não existe um jeito seguro para o uso de agrotóxicos na produção de alimentos. “Nos períodos de maior vulnerabilidade do nosso corpo, como gravidez, infância e adolescência, qualquer dose pode provocar graves doenças”, afirma. 
O resultado dessa engenharia da morte é que a presença de herbicidas nos alimentos tende a ser fatal à saúde humana. Existem quatro graves consequências, enumera Moritz. A primeira, chamada de neurotoxicidade, age diretamente no sistema nervoso periférico. A ciência comprovou que, mesmo em pequenas doses ou porções, os agrotóxicos, neste caso notadamente os inseticidas, causam sérios problemas, principalmente em crianças, como alteração no QI, déficit de atenção, hiperatividade, autismo e transtornos psiquiátricos. Na vida adulta, é o gatilho para uma série de doenças neurológicas.  
 A segunda é a chamada toxicidade endócrina, que afeta os órgãos regulados por hormônios. As principais doenças são obesidade, diabetes, infertilidade, puberdade precoce e o câncer em órgãos que dependem de hormônio – mama, próstata, ovário e testículo.  
A terceira é o câncer. O glifosato, agrotóxico mais utilizado, é, de acordo com inúmeros estudos científicos, altamente cancerígeno. Pesquisas recentes relacionam os pesticidas à incidência de leucemia, linfomas e tumores sólidos no sistema nervoso central. Por fim, estimula-se a chamada disbiose intestinal, um desequilíbrio causado pela diminuição do número de bactérias boas do intestino e o aumento das bactérias capazes de causar doença. 
No Brasil, entre 2007 e 2014, foram registradas quase 2 mil mortes por intoxicação agrícola, média de 148 óbitos por ano ou um caso a cada dois dias e meio. O campeão é o Paraná, com 231 falecimentos no período, seguido por Pernambuco (151) e o trio São Paulo, Minas Gerais e Ceará (83 cada um).  
Os registros oficiais do Ministério da Saúde apontam que, no mesmo período, os casos de intoxicação por agrotóxicos superam 25 mil. O alarmante nesta estatística é que, para cada caso notificado, pode haver 50 outras não notificadas. “Os casos apontados no Mapa são apenas a ponta do iceberg, cerca de 2% do total”, escreveu Bombardi. Por conseguinte, continua ela, “é possível haver 1,25 milhão de intoxicações no País por agrotóxico”. Na mesma lógica, o número de óbitos seria muito maior. 
O número de óbitos e doenças causados pelos pesticidas está subestimado, afirma a professora Larissa Bombardi 
Outro fator preocupante é a quantidade de mortes de bebês com até 12 meses. No período, foram anotados 343 casos, média de 49 por ano. O Paraná também lidera esta lista (41), seguido por Minas Gerais (35) e Pernambuco (28). Uma criança nessa idade não se locomove sozinha. Isso demonstra claramente o risco a que estão expostas pela presença de veneno no ambiente familiar, na convivência comunitária ou no uso desenfreado do produto, inclusive pela pulverização da área. Vale lembrar que na Comunidade Europeia não é permitido o uso de aviões na aplicação dos produtos. 
Sônia Hess, engenheira química e pesquisadora na área de química orgânica e saneamento ambiental, afirma que a cada dia “estamos sendo mais e mais envenenados”. Para os cientistas, diz ela, não há novidade nessa descoberta, mas a população não consegue entender o risco latente pela falta de informações. “A mídia tradicional sobrevive justamente das empresas que produzem venenos.” Ela lembra os mais de 300 produtos autorizados só neste ano pelo governo Bolsonaro. “Isso mostra que a saúde pública não é prioridade, mas o lucro das empresas e os resultados econômicos.” Dentre todas as medidas para amenizar os efeitos, afirma, a mais importante é a preservação dos mananciais, a partir de medidas para evitar que sejam jogados lixo e esgotos nos rios e o uso de veneno em lavouras próximas. “Precisamos de uma legislação rigorosa que proteja a água.” É pouco provável que algo nessa linha venha a ser aprovado neste governo.” 

"Sínodo da Amazônia, bênção espiritual, ética e profética"







Foto: Divulgação / Rede dos Cristãos 


Artigo: por frei Gilvander Moreira 

Bendito dia 15 de outubro de 2017, dia que o Papa Francisco, acolhendo os clamores dos povos amazônidas, da mãe terra amazônica, da irmã água, da fauna, da flora e de toda a biodiversidade, teve a intuição e a coragem de convocar o Sínodo da Amazônia. Quase do tamanho do Brasil, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 60% da Amazônia está em território brasileiro e os outros 40% estão em outros oito países: Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Guiana Francesa. Na região Pan-Amazônica vivem mais de 34 milhões de pessoas, em quase 400 povos diferentes, centenas deles povos ainda isolados no meio da floresta. 
Dos dias 6 a 27 de outubro agora (2019), no Vaticano, em Roma, na Itália, está acontecendo o Sínodo da Amazônia. A palavra ‘Sínodo’, na língua grega, é composta de ‘syn = com, juntos e hodos = caminho. Portanto, sínodo significa ‘caminhar juntos’. Ou seja, caminhar com os povos amazônidas, não sem eles e jamais contra eles. Em 519 anos de presença branca na Amazônia houve muita violência socioambiental em um projeto de colonização que trouxe juntas a cruz e a espada. O Papa Francisco e a Igreja Povo não toleram mais nenhum tipo de neocolonização. A política de integração dos povos indígenas à cultura branca também é processo de violência que não pode mais ser tolerada. “Muitos irmãos e irmãs na Amazônia carregam cruzes pesadas e aguardam pela consolação libertadora do Evangelho, pela carícia de amor da Igreja. Por eles, com eles, caminhemos juntos”, diz em alto e bom som o Papa Francisco. 
Mais de 300 personalidades, entre as quais 110 bispos latino-americanos, participam do Sínodo da Amazônia, guiados pelo tema: Novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral. Do Brasil estão participando do Sínodo da Amazônia mais de 40 bispos e muitos representantes de povos originários e mulheres, inclusive. Em um exercício de participação popular e democrática, mais de 800 mil pessoas participaram das reuniões e assembleias de preparação para o Sínodo da Amazônia. Muitas propostas foram colocadas e estão sendo discutidas no Sínodo. Por exemplo, Povos Indígenas do Equador enviaram mensagem ao Papa Francisco pedindo que a Amazônia seja elevada à categoria de Patrimônio e santuário mundial intangível da Casa Comum e que sua preservação seja vista como uma necessidade de responsabilidade socioambiental e geracional diante do alarme ecológico disparado. 
Com o Sínodo da Amazônia, o Papa Francisco aponta que o caminho para evitarmos o Apocalipse final passa por ouvirmos os/as mártires da Amazônia e com a causa deles/delas nos comprometermos. Citamos, por exemplo, milhares de indígenas assassinados ao longo de 519 anos de violência imposta aos povos indígenas pela colonização europeia, Chico Mendes, padre Ezequiel Ramin, Irmã Dorothy, entre tantos outros/as. Ouvir os/as mártires da Amazônia implica estancar a devastação da Amazônia e frear o avanço do agronegócio sobre a região.  Não às monoculturas! Não à mineração devastadora! Sim à demarcação de todos os territórios indígenas e dos Povos Tradicionais. Sim a uma Economia a partir dos povos originários e que garanta a sustentabilidade ecológica. O Sínodo indica que seguir o jeito que o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) trilha há quase 50 anos, desde 1971, no meio dos Povos Indígenas é caminho ético e emancipatório. Nada de cristianização, nem integração, mas respeito e admiração pela alteridade imensamente plural dos Povos Indígenas e Tradicionais, tais como: pescadores tradicionais, ribeirinhos, seringueiros, quilombolas, quebradeiras de coco de babaçu etc. 
Em 2015, o Papa Francisco publicou a Encíclica Louvado Sejas (Laudato Si, em latim), sobre o Cuidado com a Casa Comum e sobre a Ecologia integral. A Encíclica Laudato Si incomodou opressores do centro da idolatria do mercado no mundo. A Laudato Si é um dos melhores documentos já escritos sobre a injustiça socioambiental reinante no mundo, porque não apenas aponta a imensa devastação socioambiental em curso, mas porque aponta as causas e os causadores da injustiça socioambiental. Na Encíclica, o Papa Francisco, ‘pondo o dedo na ferida’, diz claramente que o causador principal da imensa devastação socioambiental que cresce de forma geométrica no mundo é o modelo econômico capitalista, a idolatria do mercado e do capital, uma economia que violenta e mata. Francisco aponta também caminhos a seguir para a superação da injustiça socioambiental: conviver de forma harmônica com a mãe terra, preservando as fontes d’água e praticando modelos econômicos sustentáveis ecologicamente. 
Na esteira da Encíclica Laudato Si, o Sínodo da Amazônia será uma bênção espiritual, ética e profética para a Igreja, para a humanidade e para todos os seres vivos, pois ecoará que a Amazônia é bem comum de toda a humanidade e de todos os seres vivos, é o grande pulmão e um grande rim/filtro do Planeta Terra. A Amazônia é pulmão do mundo, porque, por meio do processo da fotossíntese, os milhões de árvores centenárias a partir das suas folhas aquecidas pela luz do irmão sol produzem o irmão oxigênio que garante a vida para grande parte da humanidade. Toda árvore é uma grande usina de oxigênio. Cortar uma árvore significa matar uma grande fonte de produção de oxigênio e de absorção de dióxido de carbono. A Amazônia é também um grande rim/filtro do Planeta Terra, porque, por meio das folhas das árvores, as plantas absorvem grande parte do dióxido de carbônico jogado no ar pelas chaminés das indústrias/fábricas, pela descarga dos caminhões, dos automóveis etc. 
Nós humanos, ao respirarmos, inspiramos o oxigênio que as irmãs árvores e o irmão sol nos oferecem gratuitamente e expiramos gás carbônico. As árvores fazem o contrário: absorvem gás carbônico e exalam oxigênio no ambiente. A Amazônia é também a principal fonte produtora de chuvas em grande parte da América do Sul. Na Amazônia há muita água no subsolo em aquíferos, no solo, nos rios, lagos e igarapés, e na atmosfera sobre território da Pan-Amazônia se formam os rios aéreos voadores. Cada árvore centenária da Amazônia exala na atmosfera, por dia, milhares de litros de água na forma gasosa. Com as correntes de vento, a umidade produzida no processo de evapotranspiração forma os imensos rios aéreos voadores que, empurrados pelas correntes de ventos, criam as condições objetivas para que aconteçam chuvas no sudeste e no sul do Brasil, no Uruguai, no Paraguai e na Argentina. Esses rios aéreos voadores produzidos na Amazônia transportam uma quantidade maior de água do que os rios que estão na superfície do solo amazônico. Conhecer de forma profunda a Amazônia se tornou uma necessidade para amarmos e defendermos de forma intransigente a sua preservação. Se não interrompermos com urgência a devastação ambiental da Amazônia, a desertificação da Amazônia causará a desertificação de grande parte do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o aumento assustador da temperatura e o colapso d’água em várias regiões do Planeta Terra, o que tornará a vida humana impossível no Planeta Terra, nossa única Casa Comum. Imagine o que será da humanidade com a quantidade de dióxido de carbono jogada na atmosfera sem ter a floresta amazônica para absorver! 
A Amazônia é a grande farmácia da humanidade e dos animais, pois da seiva da sua imensa biodiversidade se extraem os fármacos que produzem remédios que curam a maioria das doenças. Logo, a Amazônia é um território terapêutico também. A Amazônia é um território povoado também por espíritos ancestrais e originários. A história demonstra que os principais e verdadeiros guardiões da Amazônia são seus quase 400 Povos Indígenas que falam quase 400 línguas, uma imensa diversidade cultural e espiritual que habita esta região há pelo menos 14 mil anos. Projeções feitas a partir de documentos e de pesquisas arqueológicas estimam a população indígena, por ocasião da conquista/colonização, em 1.500, entre três e cinco milhões de pessoas, somente na Amazônia brasileira. Por isto, a não demarcação das terras indígenas intensifica as ameaças a estes povos, pois demarcar as terras indígenas é o primeiro passo para o respeito de seus direitos primordiais à terra, ao sagrado e às práticas xamânicas milenares. 
Portanto, bendito quem se compromete com a defesa da Amazônia e de todos os biomas. Maldito quem, por ignorância ou por cumplicidade com o sistema do capital, está agindo de forma devastadora. O Sínodo da Amazônia proporá mudanças radicais no sentido de respeitar e valorizar a imensa fonte de vida que está na Amazônia. Feliz quem se abrir para os apelos dos Povos da Amazônia e para os clamores da Floresta Amazônica com toda sua esplendorosa fauna e flora. O Papa Francisco está propondo inclusive iniciar com o Sínodo da Amazônia o fim do celibato obrigatório e o fim do clericalismo na Igreja Católica, ou seja, o Sínodo da Amazônia deverá abrir espaço para que homens casados também possam ser sacerdotes e mulheres possam também ser ordenadas para presidir a celebração da eucaristia. Enfim, o Sínodo da Amazônia proporá conviver com as culturas respeitando-as e não cristianizando-as. O cardeal Tolentino Mendonça aponta o significado do Sínodo: “O Papa Francisco com o Sínodo da Amazônia quer colocar a periferia no centro da Igreja”. Eis um caminho santo e emancipatório a ser trilhado para que a Igreja se torne de fato igreja com rosto amazônico, igreja descolonizadora.” 
Fonte:  articulista: frei Gilvander Moreira 

terça-feira, 8 de outubro de 2019

“Igreja vai se opor a planos de Bolsonaro no Sínodo”






Por Felipe Frazão - Estadão 
BRASÍLIA - “O rangido dos motores de duas balsas cargueiras ecoava num início de noite sem chuvas na orla de Icoaraci, um distrito bucólico de Belém do Pará, onde as ruas ostentam o nome de travessas. Lado a lado, as embarcações cortavam as águas barrentas e turvas da Baía do Guajará carregadas com centenas de toras de madeira empilhadas. Bem em frente, estavam reunidos 56 bispos católicos que pretendem denunciar, no Vaticano, os efeitos negativos do extrativismo. Mas o que consideram um problema passa sem ser notado. São 18h30. Com a inseparável cruz peitoral, eles celebravam a missa da última reunião no País antes do Sínodo da Amazônia, um encontro mundial de bispos convocado pelo Papa Francisco. 
Sob desconfiança e monitorada pelo serviço de inteligência da Presidência, a cúpula da Igreja na Amazônia brasileira decidiu se fechar nos preparativos para o sínodo, que começou neste domingo, 6, em Roma. 
No último encontro no Brasil, as atividades ocorreram em uma casa de retiros na periferia da capital paraense, onde os bispos rezavam, estudavam e debatiam das primeiras horas da manhã ao início da noite. 
Até mesmo uma procissão que mimetizou o Círio de Nazaré, a mais importante manifestação católica de massas da Amazônia, ocorreu intramuros na propriedade. O fato causou estranheza em três guardas municipais, escalados, com armamento antidistúrbio, para dar segurança ao encontro. 
Eram sinais de que a Igreja anda incomodada com as críticas de segmentos ultraconservadores do clero e da cúpula do governo de Jair Bolsonaro (PSL), principalmente na ala militar. No caso dos religiosos, o grupo vê no sínodo uma mudança nos dogmas históricos do clero pela sugestão de ordenar padres casados. 
Já para integrantes do Executivo, o evento defende uma brecha para o papa interferir na soberania brasileira sobre a floresta, ao denunciar ausência de políticas públicas e se opor aos planos de exploração econômica, anunciados por Bolsonaro. O papa apoia uma mobilização internacional de países e entidades, entre elas organizações não governamentais (ONGs), um dos alvos mais frequentes de ataques do presidente. 
O governo e os conservadores consideram que o texto-base preparado para discussão em Roma tem viés de esquerda. Chamado de Instrumentum Laboris, o documento de trabalho sintetiza um processo de escuta feito em nove países pelos quais a floresta tropical se espraia, com mais de 265 atividades e 87 mil pessoas envolvidas, a maior parte no Brasil. 
A Igreja enfoca a degradação ambiental provocada pelas "grandes companhias", a "corrupção" e a "violência", o descaso com os índios, quilombolas e ribeirinhos, da atenção à saúde desses povos à garantia da integridade de suas terras. Condena o avanço da pecuária, do desmatamento e da mineração na floresta. Também trata de questões religiosas ligadas à liturgia e à evangelização, como a incorporação de rituais e línguas indígenas às cerimônias, o ordenamento de padres casados, a valorização das mulheres na hierarquia católica e a presença expansiva de igrejas neopentecostais. 
Uma parte dessas sugestões é considerada uma ruptura no catolicismo. Por causa das críticas, o documento passou a ser chamado pelos bispos de "texto mártir", confidenciou o arcebispo de Belém, Dom Alberto Taveira Corrêa. "Ele apanha de todo lado." 
A expectativa dos bispos é de mais ruídos, apesar de tentativas para minimizá-los. Nos pronunciamentos, por exemplo, Bolsonaro quase nunca é nominado. Os clérigos preferem se referir a ele de forma mais genérica, substituindo o nome do presidente por "governo", "País", "Estado", "autoridades"... Os religiosos evitaram entrar no embate direto e pessoal com o chefe do Executivo. 
Há entre os organizadores do sínodo quem enxergue na campanha difamatória uma articulação internacional contra o papa incentivada por Steve Bannon que foi estrategista da campanha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.  E também de Bolsonaro. Eles, no entanto, não têm evidências de que Bannon esteja por trás das críticas de cardeais conservadores, como o americano Raymond Burke e o alemão Walter Brandmüller. 
A suspeita vem do fato de que Bannon tem o papa como alvo há algum tempo. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou até uma campanha nas redes sociais com os lemas "Eu apoio o papa" e "Eu apoio o sínodo". 
Em duas oportunidades, o bispo de Marajó, no Pará, dom Evaristo Spengler, foi ao Congresso Nacional pedir apoio aos deputados. Discursou da tribuna e entregou a Carta de Belém, com protestos dos bispos, e se opôs abertamente aos planos do governo, lançando uma campanha de rechaço à mineração e grandes obras amazônicas. Ele disse ainda que o governo é que ameaça a soberania nacional ao se aliar a interesses dos Estados Unidos.” 
Fonte: Estadão